The Office: A beleza está em todos os lugares

The Office já teve seu fim a mais de sete anos, tendo sua nona e última temporada lançada em 2013, mas como toda série que marcou a história da televisão, seu sucesso cresceu ainda mais após seu término, tendo chegado no ápice durante a atual quarentena pelo corona vírus, o que é irônico já que no momento em que todos estão em suas casas, a série de maior sucesso é sobre o cotidiano mundano de um escritório.

O que fascinou o público é o estilo narrativo adotado pela série, sendo gravada como um documentário em uma simples revendedora de papel, e sua ideia principal era o foco total no chefe deste escritório, e em como o público iria sentir o humor através do constrangimento, para isso, eles precisavam de um ator com talento suficiente para limiar sua interpretação para que o público não o odiasse e ao mesmo tempo se incomodasse com suas atitudes, e aí que entra Steve Carell.

Seu personagem Michael Scott era a alma da série, mas ao meu ver, isso começou a se perder aos poucos, não por falta de qualidade do personagem, e sim pelo desenvolvimento dos outros personagens do escritório, aos poucos vamos acompanhando o relacionamento de Jim e Pam evoluir, Dwight aprender com o passar dos anos o real valor de seus colegas de trabalho, Darryl descobrindo que se não mover sua vida para frente ela continuará parada, e Kevin… bem, sendo o Kevin.

E por conta disso que essa série passou a não ser somente uma série de comédia como também de drama por muitas vezes, vemos o psicológico daqueles personagens serem penetrados em todas as temporadas com seus valores emoções sendo demonstrados com bastante coragem ao público e de forma madura, isso somado ao elemento “documentário” apenas reforça para nós que aqueles não são apenas personagens, são pessoas, e nos relacionarmos com estes sentimentos torna The Office em algo especial.

A primeira temporada costuma incomodar muitas pessoas (não a mim o autor), as afastando da série por seu humor mais parecido com sua inspiração Inglesa, Michael Scott para estas pessoas possuía um humor irritante, agressivo e preconceituoso, mas para discutir isto eu preciso abrir um parênteses neste artigo, pois o humor de absurdo pode sim ser irritante, mas também pode ser muito engraçado.

Quando uma piada de assunto sensível é feita o autor sabe que não irá agradar a todos, mas é sim uma tentativa válida pois o humor não está na concordância do público com o que foi dito, e sim no absurdo do mesmo; Quando riem de uma piada de homofobia, racismo ou pedofilia, não é pelo público concordar com estes temas, e sim por eles serem obviamente errados, absurdos, monstruosos, e que não se aplicam (pelo menos não deveriam) a sociedade de hoje, é justamente isso que está intrínseco ao Michael Scott, podemos ver que o personagem não é de fato preconceituoso, racista, homofóbico, ele só é um sem noção que justamente por ter crescido nos anos 80, querer ter uma família, ser sozinho e querer ser amado por todos em seu escritório, ele acaba fazendo comentários absurdos, mesmo sem perceber.

——— Spoilers adiante———

A série teve sua queda de qualidade com a saída de Michael Scott, o personagem teve sua conclusão extremamente emocionante e coerente com toda sua jornada linda de querer ter uma família, e após isso, os roteiristas sentiram que perderam a alma do seu projeto, perdendo bastante tempo durante toda a oitava temporada tentando encontrar um substituto para seu astro, mas a série voltou a brilhar quando eles finalmente perceberam que a alma do seu projeto não era apenas um personagem, e sim todos que convivem naquele escritório.

A nona temporada de The Office foi completamente triunfal, usando e abusando dos maneirismos dos personagens que ela mesma consagrou e terminando de desenvolver cada um de seus arcos um por um, com seu fim emocionante com todos os seus personagens felizes com suas jornadas concluídas, Kevin e Dwight se reconciliando, Jim e Pam indo viver suas vidas felizes com sua família, Dwight se tornando finalmente o chefe do escritório e dessa vez reconhecendo que precisa de cada um deles para o negócio funcionar, Stanley se aposentando e vivendo feliz e isolado na Califórnia que ele tanto amava e cobiçava, e Creed, sendo finalmente preso.

E é isso que fascina nesta longa odisseia de monotonia, a diversidade de vidas e emoções presentes ali, que mesmo simples, foi capaz de contar histórias extraordinárias, pessoas extraordinárias, nos mostrando que a beleza em todos os lugares, até mesmo numa simples revendedora de papel.

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