O terror brutal e atmosférico em “O Massacre da Serra Elétrica”

A série de filmes com base em um dos assassinos mais bizarros dos EUA é uma das mais bem sucedidas do gênero.

Para o mestre do horror Stephen King, O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 1974) permanece sendo o melhor filme de todos os tempos quando se trata do medo simples e puro. Também é o filme B de terror favorito do diretor Quentin Tarantino. Dirigido por Tobe Hooper, a obra teve como uma de suas inspirações o mais bizarro assassino dos EUA: Edward “Ed” Gein.

Edward Gein.

No dia 16 de novembro de 1957, em Plainfield, Wisconsin, a polícia foi convocada pelo desaparecimento de uma lojista de meia idade Bernice Worden, que teve seu corpo encontrado em um barracão anexo à casa de Edward “Ed” Gein. O corpo, no entanto, estava pendurado de cabeça para baixo, estripado e decapitado. Ao revistarem a casa de Gein, o local estava cheio de lixo e abandonado, contando em meio aos entulhos partes de corpos de pelo menos quinze mulheres. Não fosse suficiente, as invenções macabras de Gein também destacaram como um dos mais sensacionais casos de assassinato, canibalismo, necrofilia (este, negado por Gein) e roubo de túmulos do século XX.

Os conteúdos de Gein incluíam: cadeiras com assentos feitos com pele humana, nove máscaras feitas com rostos conservados, quatro narizes humanos, uma lata de lixo feita com pele humana, uma cabeça humana pendurada, dois crânios montados na cabeceira da cama, um par de lábios humanos pendurados em uma linha, fora outras bizarrices. O coração de Bernice foi encontrado numa frigideira, enquanto os outros órgãos da lojista haviam sido jogados numa caixa de papelão.

Gein aproveitava para fazer um tambor com pele esticada por cima de uma lata, uma tigela feita com um crânio; uma calça, camisa, pulseiras e bolsa feitas de pele humana. Estava incluindo em sua coleção, também, um traje feminino de corpo inteiro construído com pele humana, até o rosto, sua maior criação. Ele gostava de se fantasiar, era o traje criado após a morte de sua mãe para que pudesse até assumir a forma dela.

Nascido em 27 de agosto de 1906, Edward Theodore Gein foi o segundo filho de Augusta e George Gein; era sete anos mais novo que Henry, seu irmão. Augusta era uma clássica fanática religiosa: convencida de que o mundo estava cheio de pecado, tinha a ideia de que as mulheres que “viviam à toa” levariam os filhos dela à perdição e para o inferno. Portanto, Ed, em particular, nunca se relacionou com ninguém. Augusta assumiu a criação de Ed e Henry sozinha, pois enxergava George como um imprestável e incapaz de criar seus filhos. Augusta acabou por comprar uma fazenda Plainfield com o dinheiro de sua mercearia e se mudou para lá com a família.

Ed e Henry faziam bicos para manter a fazenda, pois em 1940, George viera a falecer. Augusta, no entanto, continuou abusando de seus filhos, convencida de que eles seguiriam seu pai em direção ao inferno. Enquanto Henry contestava as atitudes da mãe, Ed aceitava as humilhações dela. Henry morreu em 1944, supostamente tentando apagar um incêndio perto de casa. Ed ficou sozinho com sua mãe até dezembro de 1945, que foi quando ela morreu após uma série de derrames.

Sem sua mãe e incapaz de se livrar de 39 anos de abusos cometidos por ela, a psicose de Gein começou a desabrochar. Por mais incrível que seja, ele trabalhava como babá e era visto pela comunidade como uma pessoa inofensiva e solitária, quando na sua intimidade ele se isolava com seus livros de anatomia, relatos de experimentos nazistas e uma pilha de jornais locais, com a atenção sempre voltada aos obituários. Gein começou suas andanças noturnas pelo cemitério, violando os túmulos e voltando com partes de corpos femininos e pedaços de pele. A genitália era o que mais o interessava.

Embora apenas tenha sido condenado por dois assassinatos, Gein foi suspeito por outros desaparecimentos. Em 1958, considerado como insano, ele foi condenado por encarceramento por tempo indeterminado no Hospital Central Estadual, em Waupun. Nesse tempo, a casa de Gein fora incendiada antes de ir a leilão. Todos os seus pertences não destruídos pelo fogo foram vendidos, incluindo seu carro, o item mais famoso, exposto em feiras da região.

Destroços da casa de Gein após o incêndio.

Demorou dez anos para que Gein pudesse ser considerado apto para ir a julgamento, que aconteceu entre janeiro e novembro de 1968. Em 1978, depois de ter sido levado de volta ao Hospital Central Estadual, Gein foi transferido para o Instituto de Saúde Mental de Mendota, onde era descrito como um “preso modelo”: gentil e educado. Gein faleceu em 26 de julho de 1984 aos setenta e sete anos e foi enterrado ao lado de sua mãe no cemitério de Plainfield.

“O carro que tirava os mortos do cemitério”, um dos itens mais famosos de Gein.

Edward Gein ficou famoso não só pelos seus crimes, mas também por inspirar obras e adaptações para o cinema. Norman Bates, protagonista do livro Psicose, de Robert Bloch, foi livremente baseado em Gein. A obra chegou até Alfred Hitchcock, que lançou o filme em 1960 e com ele mudou o cinema moderno. Psicose inspirou inúmeras imitações cuja relevância para o caso Gein fosse mínima. Ele também serviu de base para o personagem Buffalo Bill no livro de Thomas Harris O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs), cuja adaptação para o cinema de Jonathan Demme ganhou o Oscar.

Entretanto, este infame e bizarro criminoso acabou por ser inspiração de um dos vilões mais famosos do cinema: Leatherface, em O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre) em 1974, dirigido por Tobe Hooper.

Leatherface garantindo o jantar.

O Massacre da Serra Elétrica foi produzido em baixo orçamento, mais um filme B, um slasher movie como qualquer outro. Nele, dois irmãos viajam com seus amigos ao Texas para verificar o túmulo vandalizado de um parente. No caminho, eles se deparam com uma família de canibais. Para atrair mais o público, o longa vinha com a premissa de ser baseado em fatos reais – a introdução do filme, inclusive, destaca isso. Compondo o elenco, temos Marilyn Burns como a protagonista Sally (a final girl mais histérica que eu já vi, mas também, né…) e Gunnar Hansen como o sanguinário Leatherface.

Apesar do baixo orçamento e vários problemas na produção, o longa rendeu mais de trinta milhões nas bilheterias, mas foi duramente criticado pela sua extrema violência, sendo censurado e banido em muitos países. Acabou recebendo seu reconhecimento anos depois.

O Massacre é uma das franquias mais bem sucedidas do terror, sempre destacando o vilão Leatherface (leather: couro; face: rosto) como o serial killer que sai matando pessoas por aí com sua motosserra (sim, uma motosserra), seja para alimentar a si e sua família de canibais ou também para usar os rostos das pessoas para fazer máscaras. Seus restos como ossos, crânios e peles são usados como meros artefatos para decoração da casa. Claramente, um toque de Ed Gein.

Leatherface e sua família.

Leatherface adorava se fantasiar, usando sempre os rostos de suas vítimas como máscaras, apresentado sempre como uma pessoa demente, com algum retardo mental, louco, que nem sabe falar, apenas grita e resmunga. Ele é imortalizado como um dos primeiros vilões do gênero.

Porém, há muito mais além de Leatherface que consegue assustar neste filme. Toda a ambientação, a direção de arte, os cenários sujos, abandonados e salas repletas de objetos confeccionados com ossos humanos se mesclam de forma impecável, além da sonoplastia que deixa tudo mais sinistro do que já está. Até a histeria de Sally parece ter sido escrita e interpretada propositalmente para nos causar desespero.

Marilyn Burns como Sally.

Hooper não poderia ter escolhido lugar perfeito como plano de fundo para seu filme: o Texas. Muitas vezes retratado como um lugar abandonado, árido e ensolarado, o clima faroeste e todo aquele deserto e sua aridez que fazem parte do imaginário norte-americano é o ambiente perfeito para uma pessoa se perder (e talvez também perder a vida, quem sabe) e mesmo com o sol forte, a luz do dia, a fotografia do filme capta toda essa luz em excesso e o calor insuportável de forma que ainda traga agonia e angústia para o telespectador. É muito comum ter medo do escuro, mas a fotografia ainda assim é perfeita nesse sentido de passar o medo mesmo com tanta claridade, usando principalmente a cor amarela e meio alaranjada do sol como um desses elementos.

Para mim, o mais importante em um filme de terror não é propriamente o monstro, o serial killer ou a entidade que está ali como instrumento para causar medo. Não são os jump scares que já perderam a graça e não surtem mais efeito – a maioria tudo entregue nos trailers – ou tampouco todo aquele CGI irrealista ou tão exagerado quanto as maquiagens que atualmente dominam o gênero. O mais importante, sobretudo, é a atmosfera. Um filme pode ser assustador, tenso e causar angústia em quem o assiste sem precisar de um monstro. Muito depende da fotografia, da atmosfera, materiais que precisam ser bem conduzidos.

Em 1973, William Friedkin lançava nas telas do cinema O Exorcista (The Exorcist), até hoje considerado como o maior e mais importante filme de terror da história do cinema. Há vídeos, inclusive, de muitas pessoas saindo dos cinemas por passarem mal com o filme, o tamanho mal estar que ele causava e ainda causa até hoje. Poderia, obviamente, ser pela garotinha que estava possuída pelo diabo que entortava seu pescoço para trás e levitava sobre sua cama, pelos jump scares, pelas maquiagens assustadoras, os efeitos especiais e até mesmo pela voz demoníaca da personagem, mas, acima de qualquer coisa, ele assusta pela sua atmosfera. Hoje em dia, esse filme pode não causar o mesmo efeito que causou há anos atrás, pois o cinema está no auge de seus efeitos, ele particularmente não me assusta por todo aquele material demoníaco que hoje em dia pode ser considerado tosco e exagerado. Ele me assusta pela sua atmosfera tensa e sombria. Ele me prende e me causa angústia pela atmosfera. Mesmo quando o mal ainda estava encoberto e todo aquele terror sobrenatural não aparecia por pelo menos até metade do filme, a atmosfera densa e sua fotografia excelente tomavam conta até de cenas com personagens dialogando normalmente. É assim que se faz um filme de terror. E foi tão fantástico que foi indicado ao Oscar. Quantos filmes de terror hoje em dia recebem uma indicação ao Oscar?

O mesmo é com O Massacre da Serra Elétrica. Embora Leatherface com sua família, o pânico dos personagens e as cenas grotescas causem medo e nervosismo, a atmosfera se sobressai. Sabemos que algo não está certo naquele lugar, que algo pode acontecer a qualquer momento. A fotografia e todo o cenário sujo e macabro muito bem produzidos são com certeza os ingredientes principais para essa atmosfera, mesclados à trilha sonora. E com tudo isso, obtemos uma atmosfera densa, sombria, angustiante, que nos deixam tensos do início ao fim. É isso que falta atualmente nos filmes de terror. Porém, preferem investir mais no monstro.

O filme teve suas sequências e um remake em 2003. Conselho? Fuja das sequências. Não apenas desse clássico, mas as de qualquer filme de terror, principalmente de remakes. O Exorcista é um dos maiores e mais assustadores filmes de terror de todos os tempos, porém suas sequências decepcionaram. O mesmo pode ser dito com toda a franquia de Invocação do Mal (The Conjuring) o qual para mim, apenas o primeiro filme foi perfeito. As sequências de A Profecia (The Omen) e seu remake de 2006 não obtiveram o mesmo impacto que o primeiro. O mesmo é dito sobre Poltergeist e tantos outros. São poucos os sucessos do terror cujas sequências sejam boas e permaneçam com a essência do primeiro. E poucos são os remakes dos clássicos, principalmente os do gênero do horror, que saem tão bons quanto os originais.

O Massacre, contudo, mesmo com suas sequências e o remake, é uma das franquias do horror que permanecem vivas até os dias de hoje. Se mais um filme da franquia chegar às telas do cinema, o sucesso poderá ser o mesmo. Não importa quanto tempo passe ou quantos filmes ainda estão por vir, mesmo com quase cinquenta anos, ele ainda vive.

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