O Retrato de Dorian Gray: a única maneira de se livrar de uma tentação é se entregando a ela

Oscar Wilde mostra, em seu único romance publicado, como a vaidade corrompe e apodrece a alma humana.

(Sem spoilers)

Provavelmente, em algum momento de sua vida, você ouviu sobre o mito de Narciso. Sim, aquele rapaz da mitologia grega cuja beleza fascinava todas as pessoas ao seu redor enquanto ele próprio não tinha noção do quão belo era. Narciso representa a vaidade, o orgulho e seu nome derivou o termo “narcisismo”, transtorno de personalidade (e de muita complexidade) em que seu portador possui um amor exacerbado e uma visão grandiosa de si mesmo.

Nascido na Boécia, o mito conta que Narciso era dono de uma beleza que atraía tanto homens quanto mulheres. Quando nasceu, foi dito em um oráculo que Narciso seria muito belo, porém, ele não poderia ver seu rosto, caso contrário teria sua vida amaldiçoada. Como era orgulhoso, Narciso não se apaixonou por ninguém até ver seu rosto refletido em um lago, se apaixonando pela própria imagem. E já atraído por si mesmo, a ninfa Eco, que era apaixonada por ele, o enfeitiçou por não ser correspondida. Assim sendo, Narciso passou tanto tempo admirando seu reflexo nas águas do lago que seu corpo definhou até morrer. Após morto, seu corpo foi transformado em flor.

Há outro conto em que a vaidade pode ser mais uma vez a principal vilã da história, que é a lenda de Fausto, por Goethe. Nela, Fausto é tentado pelo diabo à vender sua alma em troca de poder, conhecimento e juventude.

Tanto Narciso quanto Fausto podem ter inspirado Oscar Wilde a criar um dos personagens mais famosos da literatura inglesa: Dorian Gray. Publicado em 1890 na revista mensal Lippincott’s Monthly Magazine, O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray) foi o sucesso e a queda do escritor. A obra era vista como uma ofensa à moralidade pública na época, tendo vários de seus trechos censurados. Wilde, então, transformou as publicações da revista em um romance, que veio a ser seu primeiro e único, embora ele tivesse outras obras, visto que era dramaturgo e desfrutava em escrever peças teatrais.

Mesmo sendo sucesso, O Retrato de Dorian Gray foi publicado em uma das épocas mais moralistas da história: A Inglaterra Vitoriana, uma era bastante repressora e hipócrita em relação aos costumes e isso contribuiu na decadência de toda a carreira e vida do dramaturgo, que foi acusado de se envolver amorosamente com o filho de um Marquês e condenado a dois anos de prisão com trabalhos forçados por ser homossexual, um crime na época. Saindo da prisão em 1897, em completa desgraça, Oscar Wilde morou em Paris, onde morreu de meningite em 1900.

Apesar do escândalo, seu único romance permaneceu sendo lembrado até atualmente. Sendo uma ofensa à boa moral da época, ofensa esta que Wilde nem procurava disfarçar no intuito de sim, alfinetar a sociedade, O Retrato de Dorian Gray fala sobre a vaidade de um homem que venderia sua alma para permanecer eternamente belo e jovem. Incialmente de bom caráter e refletindo inocência, Dorian, como Narciso, era dono de uma beleza estonteante que atraía homens e mulheres, porém, ele não tinha tanta noção disso até conhecer o pintor Basil Hallward, que como muitos outros, estava encantado por sua aparência. Dorian concorda em posar para Basil, que sob o olhar do Lord Henry Wotton, cria o retrato do belo rapaz.

Quando a pintura é finalizada, Dorian, pela primeira vez, passa a ter noção de sua beleza, se apaixonando pela própria imagem. Influenciado por Lord Henry, ele se atrai pela visão hedonista do aristocrata, se entregando aos prazeres carnais e a outros pecados, porém sempre tendo a consciência de que toda beleza que possui um dia irá embora. A extrema vaidade deteriora o espírito de Dorian, temeroso em perder o encanto que sua aparência irradia, passando a agir por seu bel prazer. Agora que tem noção de como é encantador, ele aproveita os desejos que os outros possuem por ele para satisfazer os seus, alimentando cada vez mais seu ego.

Ben Barnes como Dorian Gray na adaptação de Oliver Parker, em 2009.

Mas, como sempre, seu pior pesadelo vinha a tona para assombrá-lo: o medo de envelhecer, de perder sua juventude e beleza, o medo de morrer, fazendo com que expresse seu desejo de que seu retrato envelheça no seu lugar. Inconscientemente, Dorian estaria “selando algum tipo de pacto” e seu desejo é atendido. Por mais que o tempo passe, ele permanece da mesma forma, a mesma aparência física, sem envelhecer um ano sequer, enquanto seu retrato não só envelhece, mas também reflete cada imoralidade que apodrece sua alma até ficar completamente decrépito, embora alguns consigam enxergar Dorian pelo que ele realmente é.

Quando o desejo de Dorian é atendido, é como se sua alma passasse para o retrato. Da mesma forma que ela apodrecia por cada crueldade que cometia, seu retrato refletia seus atos perversos. Já que sua alma não lhe pertencia mais e poderia ter sido transferida para a pintura, Dorian torna-se desalmado, se entregando exageradamente à experiências libertinas e amorais enquanto sua vida passa. Aliás, como o diabólico Lord Henry aconselha, “A única maneira de se livrar de uma tentação é se entregando a ela. Resista, e sua alma crescerá doente de desejo“.

O Retrato de Dorian Gray pode ser uma leitura rápida por não ser um romance muito extenso, mesclando horror e filosofia, contendo algumas cenas de ação e elementos até mesmo um pouco brutais. Afinal, como um excelente dramaturgo diretamente ligado ao teatro, Wilde soube construir e desenvolver cenas e diálogos de forma espetacular, apresentando personagens interessantes e entregando até mesmo a imoralidade que a sociedade tentava esconder na época devido à sua hipocrisia.

A ideia do livro, embora Wilde não quisesse passar nenhuma, é de como a vaidade corrompe a alma do ser humano, de como ela apodrece o interior de alguém. Por mais que uma pessoa seja bela exteriormente, seu orgulho e as coisas em que se faz muito em função dele apodrecem seu interior, tornando-se tão feio quanto o exterior deveria ser. Se muitos fossem por fora o são por dentro, poderiam se envergonhar de si mesmos da mesma forma em que Dorian se envergonharia ao conhecer sua verdadeira imagem.

O livro passa essa lição conforme o leitor o interpreta durante a leitura. Certamente, cada um é livre para interpretar o que bem quiser, obter a mensagem e reflexão que entender, mas esse não era o desejo de Wilde. Ao escrever O Retrato de Dorian Gray, por mais filosófico que seja o romance, o dramaturgo não obtinha a intenção de passar mensagem alguma. Logo no prefácio, o autor declara que “toda forma de arte é completamente inútil”, uma frase que pode ser mal interpretada por muitos. Para Wilde, a arte existe apenas para ser admirada, nada mais. Ela não possui a obrigação moral de transmitir alguma mensagem, ela não serve para provar absolutamente nada. O artista não tem o dever de passar uma reflexão ou lição de moral através de sua obra, não é obrigado a educar ou transmitir algum ensinamento. A arte foi feita para ser apenas bela e admirada, mesmo sendo um dos veículos usados por alguns artistas para transmitir não só seus sentimentos, como também uma mensagem. Entretanto, para Oscar Wilde e para muitos outros, a arte é somente pela arte.

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