O Iluminado e a ‘farsa’ do Apollo 11

Poderia Stanley Kubrick ter implantado pistas em sua adaptação homônima do livro de Stephen King sobre seu possível envolvimento na “farsa” da viagem à lua, ocorrida em 1969?

Stanley Kubrick (1928 – 1999) é um dos maiores cineastas de todos os tempos cujo impacto cultural na história do cinema é notória. Lembrado por sucessos como Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971), Lolita (1962), Kubrick é lembrado por suas técnicas e produções trabalhadas com a maior minúcia possível.

Uma das mais famosas teorias da conspiração é a do Apollo 11, que implica a farsa da viagem à lua. Pior: Kubrick pode ter feito parte da façanha. Mas tudo isso vai bem mais além: o cineasta poderia denunciado a farsa em seu filme O Iluminado (The Shining), lançado em 1980. A teoria também se encontra presente no documentário Room 237 (O Labirinto de Kubrick), de 2012, onde é reforçada.

O Iluminado é uma adaptação do livro homônimo de Stephen King, o mestre do horror. Apesar de infiel ao livro, rendeu boas críticas e ótimo lucro, reconhecimento e permanece considerado um dos maiores filmes de terror da história do cinema. Kubrick nos apresenta um material com cenários deslumbrantes, design de produção extravagante, técnica perfeita e um elenco encabeçado por nomes como Jack Nicholson, cuja atuação foi perfeita e consagrou o ator como uma superestrela, um dos nomes mais importantes de Hollywood.

A história, segundo King, é “apenas sobre bloqueio de autor”. Nela, Jack Torrance, interpretado por Jack Nicholson, é contratado como caseiro durante uma temporada no então vazio Overlook Hotel, que fica em meio às montanhas Rochosas do Colorado. Ele acaba levando sua esposa Wendy (Shelley Duvall) e seu filho Danny (Danny Lloyd). Cumprindo seu dever de cuidar do colossal estabelecimento durante a baixa estação, à medida em que o tempo passa, cada membro da família vivencia diferentes alucinações. Efeito do isolamento? Talvez, mas o hotel realmente é assombrado. Danny, que possui poderes psíquicos, é o primeiro a ver cenas dos assassinatos sangrentos que aconteceram no hotel muitos anos antes. Em seguida, Jack começa a mergulhar em uma espiral de loucura, sem total consciência do que está acontecendo com ele. Com o tempo, seu comportamento se torna mais errático e violento.

Wendy (Shelley Duvall), Danny (Danny Lloyd) e Jack (Jack Nicholson) rumo ao Overlook Hotel.

Kubrick explora temas recorrentes também no livro como a falta de comunicação e o isolamento, fazendo disso parte da construção de uma atmosfera sombria, angustiante e claustrofóbica, escolhendo cuidadosamente seus ângulos e ritmos de filmagem. Mesmo entregando um clássico do cinema de terror moderno, Stephen King, no entanto, não ficou muito satisfeito com a versão cinematográfica de seu conto. Em 1997, junto de Mick Garris, produziu uma minissérie para a televisão, usando o texto de seu livro praticamente ao pé da letra.

A insatisfação de King para com o filme nunca foi escondida por ele. Para ele, adaptação foi além de infiel. Foi, também, superficial, investiu em um clima muito frio e se esqueceu de contar uma história. Como resposta, Kubrick chegou a afrontar o renomado escritor em uma de suas cenas. Nela, um dos personagens dirige em direção ao hotel e se encontra em uma estrada onde aconteceu um acidente de carro antes. O carro estraçalhado na rodovia é do mesmo modelo ao que King dirigia. Kubrick pode ter deixado claro, ali, que enredaria o filme conforme sua vontade, sem respeitar o texto de King.

As mudanças de Kubrick no filme foram diversas, mas o diretor também poderia ter incluído uma série de pistas que confessam seu envolvimento na farsa do Apollo 11. Nada confirmado por ele e desmentido por sua filha até recentemente, apenas teóricos da conspiração afirmam com veemência tamanha façanha exposta pelo cineasta em muitas de suas cenas. No documentário Room 237 , todas essas pistas são expostas. Para quem conhece o assunto e adora essa teoria da conspiração, pode perceber, se prestar bastante a atenção, tais pistas escondidas no longa.

2001: Uma Odisseia no Espaço (1968)

A teoria começa com o filme 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odissey), também dirigido por Kubrick e lançado em 1968, um ano antes da viagem à lua. Mas indo para o vídeo em que Neil Armstrong e Buzz Aldrin desembarcam em solo lunar, que veio a se tornar um momento histórico para o mundo, são encontradas algumas inconsistências. Perguntas como “Por que as sombras parecem ser o resultado de várias fontes de luz?” , “Como a bandeira americana está se movendo?” , “Por que a letra C é visível em uma das rochas? (esta, que parece um acessório de um conjunto de filmagens)” , foram geradas, alimentando a mente dos teóricos. Parece que em O Iluminado eles obtiveram algumas respostas. Quando Kubrick havia filmado 2001: Uma Odisseia no Espaço, acreditava -se que havia sido contratado pelo governo americano para filmar o “falso pouso”. Diante do material do diretor, todo o cenário poderia ser também muito bem construído para a encenação, como muitos acreditam.

O papel de O Iluminado nisso? Acreditam que a adaptação cinematográfica do livro de Stephen King revela pistas sobre a farsa e que o longa foi uma maneira de Kubrick confessá-la. Em Room 237, muitas dessas pistas foram minuciosamente examinadas por Jay Weidner.

Começando pelo próprio Overlook Hotel, que é visto como uma representação da América. No começo do filme, o público é informado que o estabelecimento fora construído por cima de onde já foi um cemitério indígena. Em seu encontro com o gerente, Jack Torrance está em um cenário onde em cima da mesa há uma bandeira americana. Há, inclusive, uma águia olhando por cima deles na sala, que é interpretado como um aceno para a “Águia”, nome do módulo de pouso lunar que carregava o Apollo 11.

Uma das pistas se revelam em uma das cenas mais emblemáticas do filme: as gêmeas. Como já dito, Kubrick mudou muitos detalhes do livro de King e um deles é a exibição das gêmeas mortas, já que no livro, acontece de forma diferente. Acredita-se que Kubrick usou as gêmeas para retratar o projeto fracassado Gemini, da NASA.

Em uma outra cena, o diretor mostra um cenário por cima do personagem Danny enquanto ele brinca no corredor. A técnica do diretor de mostrar a cena por cima destaca o tapete estampado no qual Danny está com seus brinquedos. Os conspiracionistas ainda dizem que os padrões da estampa do tapete se parecem muito com a plataforma de lançamento do Apollo 11.

Na mesma cena, ao se levantar, Danny está vestindo um casaco com o Apollo 11 estampado nele. Essa é uma das pistas mais claras: implica mais ainda na confissão de Kubrick sobre sua participação no “falso pouso”. Danny levantando do tapete, que é visto como plataforma de lançamento, vestindo seu casaco (Apollo 11), entra em seguida no Quarto 237. No livro, o número do quarto é 217, mas acreditam que Kubrick alterou para 237 a fim de expressar a distância da terra à lua em milhas. A etiqueta na maçaneta da porta também é vista de forma estranha. A escrita “room” (quarto) pode ser confundida com “moom” (moon, traduzida para o português, significa lua) devido a técnica do diretor em sua filmagem.

Jack, que é também um ex professor e escritor, aproveita o isolamento do hotel para trabalhar em sua nova obra. Na cena em que Wendy, junto com o público, vê todo o material escrito por Jack, ela se depara com várias páginas compostas por uma frase escrita repetidas vezes: “All work and no play makes Jack a dull boy“. Nesta frase, percebem que a palavra “All” na verdade significa “A11″ = Apollo 11, aos olhos dos conspiracionistas.

Um dos momentos mais assustadores do filme seria em que Danny se vê de frente para um dos fantasmas do hotel, que veste uma fantasia de urso. O urso pode muito bem representar a corrida espacial entre a América e a antiga União Soviética, onde o urso é usado muitas vezes como um símbolo russo.

Mesmo com tantas pistas, Kubrick sempre negou tudo. Em 2016, a filha do cineasta (que também atua na mesma área que o pai) Vivian Kubrick desmentiu ao ser abordada com a teoria, aproveitando para também enaltecer a integridade artística do pai e todo seu compromisso social: “Um artista, como o meu pai, cujo grau de integridade artística profunda é evidente, cuja consciência política e social está manifestamente presente em quase todos os filmes que fez, cujo tema altamente controverso literalmente colocou sua vida em risco e ainda assim ele continuou a fazer o filme que ele fez, vocês não acham que ele seria a última pessoa no mundo a ajudar o governo dos Estados Unidos em uma traição tão terrível ao seu povo? (…) Eu vivi e trabalhei com ele, então, perdoem minha dureza quando eu afirmo categoricamente: a dita ‘verdade’ que esses excêntricos maliciosos insistem em espalhar – que meu pai conspirou com o governo dos EUA para ‘forjar o pouso na Lua’ – é manifestamente uma mentira grotesca.” – declara.

Segundo Vivian e o pai… Fake News!

O envolvimento de Stanley Kubrick na possível farsa da viagem à lua não é a única teoria abordada pelo cineasta em O Iluminado. Também são mostradas referências em outras cenas que podem representar também O Holocausto, por exemplo. Mas será que existe alguma verdade nessa teoria? As pistas implantadas por Stanley Kubrick em O Iluminado seriam coincidências ou realmente confessam seu possível envolvimento na farsa? Parece que hoje em dia, por mais que ainda tragam a conspiração à tona, isso não tem mais importância.

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