Lolita e a romantização da pedofilia

Sucesso até os dias de hoje, o romance de Vladimir Nabokov retrata a repulsiva relação entre um pedófilo e sua vítima, que segundo o agressor, não era tão vítima assim.

(Sem spoilers)

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne. Minha alma, meu pecado.” É lindo, romântico, poético, mas não passa de uma introdução manipuladora para convencer principalmente a você, o leitor, de que o duvidoso narrador não seja tão monstruoso quanto pensam, ainda mais se tratando de um tema tão grotesco como a pedofilia.

Lolita é uma famosa – e polêmica – obra escrita pelo romancista Vladimir Nabokov, publicada em 1955. Russo, Vladimir foi para os EUA em 1940 e por lá não conseguiu publicar seu manuscrito, julgado por várias editoras com adjetivos como “amoral”, que se negavam a ter envolvimento com tal conteúdo tão controverso. Nele, Nabokov apresenta apenas um narrador, que conta em primeira pessoa o que o levou a estar aonde está no momento.

Rejeitado por muitas editoras nos EUA, foi na França que Nabokov conseguiu publicar seu manuscrito através da editora Olympia Press, conhecida na época por publicações de conteúdos pornográficos. Imediatamente, o livro foi um estrondoso sucesso, ao mesmo tempo em que chegou a ser banido de vários países por um período. Porém, permanece sendo um dos maiores clássicos da literatura, lembrado até os dias de hoje.

Pelas páginas, Vladimir Nabokov nos apresenta o professor de meia idade Humbert Humbert. De origem francesa, muda-se para os Estados Unidos no objetivo de dar aulas, acabando por alugar um quarto na residência de Charlotte Haze, que vive com sua filha de 12 anos, Dolores, por quem se atrai fortemente. Logo no prefácio, é esclarecido que Humbert e os demais personagens já estão mortos (não é spoiler) e que Humbert escreveu, sob seu ponto de vista, toda essa história enquanto esteve na cadeia aguardando julgamento. As páginas são nada mais que um meio de defesa do mesmo, desenvolvidas no intuito de comover o júri e, principalmente, o leitor. E aí, há de se perceber que não estamos lidando com um narrador tão confiável e é preciso ler o livro para saber por que ele está ali e do que está sendo acusado. Durante a leitura, facilmente o leitor pode se sentir como parte do júri. Outro motivo para não acreditar, também, que o narrador é duvidoso, é que Humbert nem mesmo é seu nome verdadeiro, mas sim, um pseudônimo criado pelo próprio.

Humbert nos leva a conhecer toda a sua relação com Dolores, a quem ele carinhosamente apelida de Lolita. Hoje em dia, Lolita é uma palavra usada em conteúdos adultos para descrever uma criança de sexualidade precoce, ou uma mulher adulta que aparenta ser muito mais nova – ninfetas, para ser mais claro. E ninfeta é um termo popularizado por este livro. Para Humbert, as meninas entre 10 e 14 anos despertam nele algo quase que demoníaco, sobrenatural, ele julga que essas crianças possuem algum poder sobre ele, uma influência que impulsiona seus desejos, quase como se elas fossem seres mitológicos como as ninfas, derivando-se então a palavra ninfeta. Devido a perda de um grande amor quando mais jovem, Humbert sente que precisa encontrá-lo por algo que nunca chegou a realizar, é um assunto inacabado e por isso se atrai por garotinhas dessa faixa etária. Assim que se hospeda na casa de Charlotte, ele cai nos encantos de Dolores, por quem se torna sexualmente obcecado.

Segundo Humbert, Charlotte apresentava comportamentos que indicavam seu interesse pelo professor, visto que ele é muito galanteador, charmoso e extremamente inteligente, e decorrendo disso, mantém com ela um relacionamento, mas no intuito de se manter próximo da enteada. A trama segue até seus caminhos estarem diretamente ligados ao de Dolores, narrando a obsessão do protagonista pela sua vítima, que, na visão dele, a caça era nada menos que o caçador. Era Dolores quem o manipulava, quem o induzia. Ele quer que o leitor acredite nisso. Afinal de contas, ele precisa comover um considerável número de pessoas. Em alguns momentos, as palavras sedutoras e inteligentes de Humbert nos levam a acreditar, por pouco, muito pouco, que existe amor naquilo tudo, quase nos fazendo esquecer que se trata de uma relação pedófila e que até a menina o provocava, que ela não era inocente, era sempre provocante e o atiçava constantemente, quando na verdade devemos nos lembrar que só por ela ser uma menina de uma faixa etária entre 10 e 14 anos já era motivo suficiente para atiçar o doentio narrador.

Jeremy Irons e Dominique Swain como Humbert e Dolores no longa de 1997.

Humbert facilmente seduz o leitor. Usando palavras românticas, de teor melancólico e poéticas o tempo todo quase que para mascarar a realidade grotesca que estava acontecendo, tratando aquela obsessão como um romance e pondo uma criança de 12 anos como culpada por muitas coisas, ele consegue manipular para que por um instante acreditemos nele. Nunca deve se subestimar o poder de persuasão de Humbert Humbert. Ele claramente é um sujeito sedutor, extremamente manipulador, cínico e, acima de tudo, doente, que cria uma explicação quase freudiana para justificar suas compulsões, ofuscando os abusos físicos e psicológicos que Dolores poderia estar sofrendo dele. Da mesma forma, o livro mantém um divisor de leitores que acreditam que sim, este homem é um pedófilo que estava se aproveitando da inocência de uma menina que nem poderia saber o que de fato estava acontecendo; enquanto outra parte acredita que, mesmo o protagonista tendo esse comportamento doentio, Dolores atiçava sim suas vontades, disfarçando sempre com seu jeito brincalhão e espontâneo de ser. Ela sabia muito bem o que estava fazendo. Essa visão pode decorrer de um leitor até mesmo mal intencionado, ou por muitas vezes, desatento, que não mergulhou a fundo pelas páginas e se deixou levar pelas palavras românticas e sedutoras de Humbert.

O fato é que não há um fato. Se existe algum fato nesta obra que deve ser pontuado é que Humbert é assumidamente um pedófilo. O leitor deve se contentar com apenas um ponto de vista na história e que nunca há de se conhecer o ponto de vista da própria Lolita. Tudo que sabemos é contado pelo agressor cuja intenção é comover um júri. Por mais que ele apresente argumentos de que a menina já teve experiências sexuais na sua idade, mesmo sendo com ele ou não, alguns pedaços da história mostram sim pontos em que a criança em questão poderia estar sofrendo com os abusos.

Mas apesar dos pesares, Lolita não foi um livro criado para ser romantizado. Na minha visão em particular, muito dessa romantização veio não só de alguns leitores, mas principalmente de suas adaptações para o cinema: a de Stanley Kubrick em 1962; e em 1997 por Adrian Lyne, ambas como o mesmo nome do livro de Nabokov.

A literatura do século XX, além de seus próprios meios de divulgação e circulação, ainda tem através do cinema uma de suas formas de veiculação mais frequentes e muitas foram as parcerias, pela interação dessas duas linguagens artísticas, entre cineastas, dramaturgos e autores de diversas obras. Se um filme é fiel ao livro são outros quinhentos, algumas modificações podem ser necessárias. Mas tanto na versão de Kubrick quanto na de Lyne, cuja qual é mais fiel ao livro, o público deu de cara com uma Sue Lyon e uma Dominique Swain hipersexualizadas. A última, em particular, destoa a visão do leitor para com o livro, onde há consciência de que é claramente uma história sobre pedofilia, quando na adaptação de Lyne isso é disfarçado, criando até a ideia de que Dolores e Humbert viveram um caso de amor. Lyne, com sua excelente direção, nos torna cúmplices do pedófilo, fazendo com que enxerguemos Dolores como Humbert a enxerga – além de passar a ideia de um Humbert apaixonado e apresentar algumas diferenças de sua personalidade que o livro mostra – uma admiração poética e romântica de sua Lolita como seu objeto de amor.

Aliás, os filmes precisam contar tudo sob o único ponto de vista do protagonista, até por que o romance de Nabokov é enredado dessa forma, mas através das telas, o telespectador pode ignorar que Dolores seja uma criança, deparando-se com uma Lolita completamente sedutora e provocante, já que o biotipo de Dominique Swain, mais velha na época para interpretar a personagem, nos faz esquecer disso e disfarça a visão pedófila que temos de Humbert. A Lolita de Sue Lyon também exibia um corpo mais desenvolvido. Talvez fosse, e foi, a forma em que Humbert enxergava sua vítima, mas se Dolores corresponde ou não às investidas de seu padrasto, é importante ressaltar que acima de qualquer coisa ela estava sendo manipulada pelo mesmo. Ainda que tenha uma sexualidade precoce, tinha com isso uma vulnerabilidade em que seu agressor aproveitaria para satisfazer a si mesmo e, como é extremamente manipulador, usar disso para induzir a menina a se submeter à certas situações que nem ela própria poderia ter conhecimento suficiente para diferenciar o certo do errado. Mas seria correto idealizar a vitima de um pedófilo como ícone sexual?

Lolita não deve deixar, jamais, de ser problematizado, não pelo seu contexto, ou pela sua polêmica, mas sim por romantizarem um tema tão pesado quando esquecem que, sobretudo, se trata de uma relação entre um pedófilo e sua vítima. Precisa ser um escritor extraordinário para fazer um tema forte como esse parecer tão lindo de forma que alguns pensem ser uma história romântica. E isso está longe de ser uma crítica negativa. Nabokov é incrível em suas palavras, em toda sua criação, que, erroneamente, julgam ser uma história de amor, quando tudo é apenas um homem de meia idade falando sobre uma menina de doze. De qualquer forma, passeamos por trechos tão pesados quanto leves, melancólicos e por vezes até com pitadas de humor, sem perder a escrita perfeitamente excelente. É um livro que prende e instiga o leitor, como também o seduz, irrita, mas absorve sua atenção de tal forma que é inegável reconhecer por que Lolita permanece sendo um clássico imortal e Nabokov continua considerado um dos melhores romancistas de todos os tempos. Lolita é o favorito de muitos, inclusive o meu, um romance que deve ser lido com atenção e discernimento, sem esquecer do que se trata todo o contexto, consciente de que na realidade, Lolita nunca foi e nunca será uma história de amor.

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