As Chaves do Reino – Parte 1

As Chaves do Reino
Introdução

Os mais nobres cavalheiros e damas, sejam muito bem vindos ao Mistérios Literários.Você está começando a escutar… Mistérios do Vaticano | Parte 1.
 
Praticamente desde o momento em que Jesus Cristo mudou o nome do pescador Simão para Pedro e lhe deu as chaves do Reino dos Céus, a religião construída em nome de Cristo começou a manter segredos por conveniência. Considerados perigosos pelos imperadores romanos, os cristãos foram para baixo da terra, literalmente, reunindo-se para orar nas catacumbas e cavernas. Inventaram gestos, símbolos e outros códigos secretos para se reconhecer, se comunicar, e evitarem ser descobertos e perseguidos. Desde sua criação, o cristianismo foi uma religião de segredos.
Depois de três séculos de repressão, a condição de proscritos daqueles que seguiam Cristo terminou quando o imperador Constantino se converteu à religião depois de ter visto a luz, literalmente. Em 312 d.C., quando se preparava para lutar contra seu mais poderoso rival, Maxêncio, junto ao rio Tibre, “ele informou ter visto a cruz de Cristo diante do sol com as palavras  (Com este sinal vencerás)”.  Ordenou aos seus homens que colocassem cruzes em seus escudos e venceu a batalha. “No ano seguinte, se encontrou com o imperador Licínio, governante das províncias orientais do Império Romano, para assinar o Édito de Milão, conferindo direitos iguais a todos os grupos religiosos dentro do império. Devolveu propriedades confiscadas dos cristãos, construiu muitas igrejas e doou terras”, enviou sua mãe a Jerusalém para encontrar o lugar onde Cristo fora crucificado e construir uma igreja no lugar, e ordenou aos bispos da religião que convocassem o “primeiro Concílio de Niceia em 325 d.C. para lidar com os falsos ensinamentos no interior da igreja”. Os resultados desse conclave foram uma lista formal de crenças cristãs (o Credo Niceno) e a aprovação de textos para inclusão na Bíblia Sagrada.
 Nesse processo de “canonização”, que excluiu textos considerados heréticos, os bispos que se reuniram em Niceia reclamaram a autoridade absoluta para decidir o conhecimento que poderia ser disseminado e o que deveria ser mantido em segredo — e que a Igreja Católica Romana mantém até hoje. Quando Constantino construiu a basílica de São Pedro na colina do Vaticano, coração de Roma, como trono dos sucessores de Pedro, ela se tornou a Santa Sé.
A basílica de São Pedro atualmente está situada no local onde no primeiro século ficava o Circo de Nero. Depois de reconhecer oficialmente a cristandade, Constantino
iniciou a construção (em 324) de uma grande basílica no local em que segundo a tradição havia ocorrido a crucificação e enterro de são Pedro. Em meados do século XV,
decidiu-se reconstruir a antiga basílica. O papa Nicolau V pediu ao arquiteto Bernardo Rosselino que fizesse acréscimos à velha igreja. A construção do edifício atual começou com o papa Júlio II, em 1596, e foi concluída em 1615, com o papa Paulo V. As estruturas vizinhas, que formam a Cidade do Vaticano, incluem edifícios que abrigam o Arquivo Secreto do Vaticano.
Como “defensor da fé” por mais de dezesseis séculos e depositário do conhecimento omitido durante tantos outros, o Vaticano tornou-se o foco de pessoas que tecem inúmeras lendas, mitos e histórias de feitos misteriosos; segredos sinistros e conspirações criminosas tramadas no interior de suas paredes. Contribuindo para as
suspeitas que rondam o Vaticano, há uma aura de mistério que envolveu a Igreja Católica Romana por séculos, incluindo o uso do latim nas cerimônias, o segredo na escolha dos papas, vestes simbólicas e adornos de cabeça, rituais de adoração, crença em milagres e aparição de santos, e a afirmação histórica de que em questões de fé o papa era infalível. Tudo isso deixou aqueles que não são católicos com a sensação de que a Igreja estava arraigada em segredo.
Para aqueles que acreditam que o Vaticano esconde coisas, nada é mais fascinante que o Arquivo Secreto do Vaticano. Desde os anos imediatamente posteriores à crucificação de Cristo, os papas guardavam cuidadosamente os manuscritos. Atualmente, os arquivos dos 264 papas e da hierarquia do vaticano ocupam quase cinquenta quilômetros de estantes com documentos amarrados por uma fita vermelha. Ocupando edifícios da Renascença não muito distantes da Capela Sistina, na Cidade do Vaticano, coração de Roma, existem arquivos não apenas de toda a história da cristandade, mas também da civilização ocidental. Ninguém, inclusive o papa, pode afirmar com certeza quantos segredos e escândalos estão guardados nos arquivos. “Os arquivos secretos do Vaticano são usados basicamente
pelo papa e sua cúria, isto é, a Santa Sé. Em 1881, sob o papa Leão XIII, os arquivos foram abertos para consulta de eruditos, tornando-se o mais importante centro de pesquisa histórica do mundo.”
Uma parte do material foi disponibilizada na internet. Mais de 600 fontes de pesquisa ocupando mais de oitenta quilômetros de prateleiras, cobrindo mais de 800 anos de história, podem agora ser visitadas no website do Vaticano. “O documento mais antigo é do século VII, e a partir de 1198 manteve-se ininterruptamente a documentação… É possível ver a carta de Michelangelo Buonarotti para o bispo de Cesena (janeiro de 1550), detalhes do julgamento de Galileu (de 1616 a 1633)”, cartas a respeito de Henrique VIII e seu desejo de anular o casamento com Catarina de Aragão para poder se casar com Ana Bolena, e o pergaminho em que o papa Clemente V concedeu perdão aos líderes dos cavaleiros templários (17 a 20 de agosto de 1308), depois de terem morrido na fogueira.
A crença generalizada de que os arquivos do Vaticano estão repletos de segredos obscuros surgiu em 2003 com a publicação do romance de Dan Bown, O Código Da Vinci, e depois com o filme baseado no livro. A história fictícia apresentava um elaborado complô montado pela Igreja desde a época em que os cavaleiros templários conspiraram com ela para eliminar as provas de que Jesus foi casado com Maria Madalena, que tiveram uma filha, que a criança era o “Santo Graal” e fora levada para a França; e que seus descendentes, descendentes de Cristo, estão vivendo entre nós. Embora fatos do livro tenham sido apontados como falsos ou enganosos, o efeito causado pelo romance e pelo filme foi o de reforçar a crença de que o Vaticano faria qualquer coisa para evitar que seus segredos fossem revelados.
Apesar de O Código Da Vinci ter apresentado uma conspiração imaginária, a história do Vaticano está repleta de fatos reais que a Santa Sé quer manter em segredo e de incidentes que curiosos querem transformar em teorias fantásticas envolvendo assassinatos, papas envenenados, sexo ilícito, conivência com nazistas, conspirações comunistas, ouro e tesouros artísticos roubados, e outras histórias sórdidas que nada têm a ver com a verdade.
Organizado cronológica e tematicamente, este livro explora a saga fascinante dos arquivos ocultos do Vaticano para separar os fatos das lendas e esclarecer as mentiras contidas nos arquivos, desde escapadas sexuais de papas e padres, assassinatos em ordens sagradas, escândalos financeiros e intrigas internacionais a histórias de óvnis e profecias a respeito do fim do mundo.
Quando o diretor Ron Howard solicitou permissão em 2008 para filmar Anjos e demônios, último thriller cinematográfico baseado na obra de Dan Brown, no Vaticano e em igrejas de Roma, o arcebispo Velasio De Paolis, presidente da Prefeitura dos Assuntos Econômicos do Vaticano na época, proibiu o uso de qualquer propriedade da Igreja em Roma. Ele disse que o autor de O Código Da Vinci havia “deturpado os evangelhos para envenenar a fé”. Afirmando que a premissa do romance, segundo a qual Jesus e Maria Madalena se casaram e tiveram uma filha, é “uma ofensa contra Deus”, De Paolis declarou que “seria inaceitável transformar igrejas em set de filmagens para que seus romances blasfemos se transformem em filmes comerciais”. Ele acrescentou que o trabalho de Brown “fere os sentimentos religiosos básicos”. “O padre Marco Fibbi, porta-voz da diocese de Roma, disse: ‘Normalmente lemos o roteiro, mas desta vez não foi necessário. O nome Dan Brown foi suficiente’.” Quando a versão cinematográfica de O Código Da Vinci foi lançada, um alto oficial do Vaticano instigou todos os católicos romanos a boicotarem o filme. Dizendo que o livro era “gritantemente anticristão”, o cardeal Ângelo Amato, assessor próximo do papa Bento XVI, disse que era “cheio de calúnias, ofensas e erros históricos e teológicos em relação a Jesus, aos evangelhos e à Igreja. (…) Se essas mentiras e erros tivessem sido dirigidas contra o Corão ou o Holocausto, teriam provocado justíssima indignação mundial (…) Em vez disso, foram dirigidas contra a Igreja Católica e os cristãos, e ficaram impunes”.
Como segundo líder mais importante na hierarquia do Vaticano, Amato insistiu para que se fizesse um boicote semelhante ao que foi feito em 1988 contra A última tentação de Cristo, dirigido por Martin Scorsese. Quando O Código Da Vinci foi publicado em 2003, as lideranças católicas se manifestaram contra. Nas semanas que antecederam o lançamento do filme, a Opus Dei, grupo católico leigo cujos membros são retratados como vilões na história, patrocinou fóruns e outros eventos públicos para refutar a premissa do livro e negar as insinuações de que o grupo é sombrio e hermético.
A proibição para Howard filmar Anjos e demônios em qualquer igreja de Roma e no Vaticano, os protestos contra o livro de Brown, e sua versão cinematográfica; são ecos de uma época em que o Vaticano exercia poder inquestionável de controle sobre a disseminação do conhecimento por meio de livros, o que se tornou possível graças ao processo de impressão com tipos móveis. Inventada por Johannes Gutenberg em 1454, a prensa móvel revolucionou o mundo da religião ao tornar a Bíblia amplamente acessível e levar livros impressos ao mundo todo. Essa disseminação de material publicado levou a um esforço do Vaticano para determinar o que os católicos poderiam ler. Isso foi feito com a publicação do Index Librorum Prohibitorum (Índex de Livros Proibidos). “Em vigor de 1559 a 1966, o Índex
relacionava os livros que os católicos não deveriam ter ou ler sob pena de excomunhão.”
“Durante a longa vida do Índex”, observou um artigo da America – The National Catholic Weekly, “o púbico ficava a par do que fora banido, mas não das razões. Atrás de portas fechadas, porém, funcionários do Vaticano realizavam longas e às vezes acaloradas discussões a respeito dos livros do dia”. Depois de mais de uma década estudando o Índex, o reverendo Hubert Wolf, padre diocesano e professor de história da Universidade de Münster, na Alemanha, declarou: “Em nenhum outro lugar do mundo, uma instituição tentou controlar um meio de comunicação do mundo moderno, o livro, por mais de 400 anos”.
Os registros com as discussões realizadas pela Igreja em torno de milhares de livros oferecem uma visão única do pensamento do Vaticano sobre teologia, filosofia, história, política, ciência e literatura mundial ao longo de séculos. Guardados em um porão do que já foi conhecido como Santo Ofício e agora é chamado de Congregação para a Doutrina da Fé, os arquivos ficaram fechados aos pesquisadores de fora durante séculos. A formação dos arquivos começou de fato com a Inquisição, em 1542, para combater a Reforma protestante iniciada quando Martinho Lutero desafiou a autoridade papal. Depois de pregar suas “95 teses” na porta da igreja em Wittenberg, Alemanha, em 1515, elas foram impressas em Leipzig, Nuremberg e Basileia e distribuídas amplamente. O Santo Ofício logo ficou sobrecarregado pela mistura de imprensa e autores protestantes prolíficos que as usaram para desencadear uma explosão editorial tão influente na época quanto a internet é hoje. O Vaticano criou outro ofício, a Congregação do Índex, para lidar apenas com livros, em 1571.
 “O primeiro Índex, (…) publicado em 1559, baniu todos os livros de Lutero, João Calvino e outros reformadores protestantes. Como a tradução da Bíblia Sagrada para a linguagem vernacular era uma especialidade protestante, todas as bíblias foram banidas, exceto a Vulgata Latina da Igreja Católica Romana. O Talmude e o Corão também foram proibidos.” O Índex também relacionava “livros que deveriam ser purgados de passagens conflitantes com os ensinamentos da Igreja. Escritores clássicos — incluindo Platão, Aristóteles, Cícero, Virgílio, Homero, Euclides, Hipócrates, Tucídides e outros — foram colocados na lista de expurgatio porque refletiam crenças pagãs. Os livros traduzidos por protestantes precisavam ser filtrados devido a passagens ofensivas. Em alguns casos, bastava o fato de um livro ter sido impresso em uma cidade ‘protestante’ para ganhar um lugar na lista de obras censuráveis…” A Congregação do Índex reunia-se três ou quatro vezes por ano em Roma. Dois “consultores” eram nomeados para cada livro analisado. Suas descobertas eram discutidas em um encontro de cardeais na congregação. As decisões eram então
levadas para a aprovação do papa. Isso produziu um acúmulo de arquivos, escritos em latim ou italiano, divididos em Diarii, que registravam as sessões da congregação, e Protocolli, com todos os tipos de papéis. A congregação da Inquisição se reunia semanalmente, mas apreciava apenas 2% ou 3% dos casos de censura, geralmente livros de teologia.
“Ao longo dos séculos, o Índex conseguiu condenar muitos escritos que depois se tornariam clássicos da cultura europeia. Entre os livros de filosofia estavam as obras de
Descartes, Espinosa, Locke, Hume, Rousseau, Voltaire, Pascal, Kant e Mill. Entre os romancistas relacionados estavam Balzac, Flaubert, Hugo, Zola, D’Annunzio e Moravia. Livros dos romancistas Daniel Defoe e Jonathan Swift entraram para uma lista negra. O zelo dos censores variou com o correr dos anos e perdeu fôlego no século XX. Um dos últimos alvos foi Jean-Paul Sartre, cujas obras foram banidas já em 1948.” O cerceamento de “livros proibidos” começou com uma conferência sobre o conteúdo da Bíblia Sagrada para cristãos em 393 d.C., quando os anciãos da Igreja compilaram o Antigo Testamento e os evangelhos “aprovados” de Marcos, Mateus, Lucas e João; o livro do Apocalipse; as cartas de Pedro e Paulo; e os Atos dos Apóstolos. Com todos os outros textos banidos, a Igreja deu início a dezesseis séculos de proibição da posse e leitura dos livros reprovados e a formação no Vaticano de uma biblioteca com literatura proibida para os católicos. “Desde que os novos convertidos de são Paulo queimaram seus livros de magia em Éfeso, a Igreja tem travado uma guerra contra os livros que possam prejudicar a fé ou a moral de seus comungantes.”
O Índex “relacionou os livros que os católicos não deviam ler. Entre eles edições não católicas da Bíblia, livros que atacavam o dogma católico, os que defendiam ‘heresia ou cisma’, e os que ‘discutem, descrevem ou ensinam temas impuros ou obscenos’, como O amante de lady Chatterley”. No entanto, “qualquer católico que tivesse ‘bons motivos’ para ler um livro banido poderia obter permissão de seu bispo. Muitos bispos norte-americanos concediam permissões temporárias para que estudantes lessem livros necessários aos seus estudos”. Apesar de o Vaticano não publicar mais um Índex, a Igreja continua a condenar livros, junto com filmes, que sejam contrários à doutrina cristã, ofensivos à Igreja ou moralmente incorretos. Essa postura militante muitas vezes levou alguns autores a desejarem que seus livros fossem proibidos por acreditarem que a reprovação oficial da Igreja Católica produziria um aumento das vendas entre os não católicos. A condenação de O Código Da Vinci, e toda a publicidade decorrente da controvérsia, contribuiu para o fenomenal sucesso comercial do romance.

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