Associação judaica dos EUA exige que Araújo se desculpe por comparar isolamento social a campos de concentração nazistas

Segundo Comitê Judaico Americano, comentário do chanceler é ‘profundamente ofensivo’ e ‘completamente inadequado’; chanceler diz que crítica é ‘injusta e equivocada’

RIO – O Comitê Judaico Americano, uma das principais organizações de defesa dos direitos e interesses da comunidade judaica nos EUA, exigiu na noite de terça-feira um pedido de desculpas do chanceler Ernesto Araújo. Na semana passada, em uma longa postagem em seu blog pessoal, o ministro comparou o isolamento social para conter a Covid-19 a campos de concentração nazistas.

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“Esta analogia usada por Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores do Brasil, comparando medidas de distanciamento social com campos de concentração nazistas é ao mesmo tempo profundamente ofensiva e completamente inadequada. Ele deveria pedir desculpas imediatamente”, disse a organização em sua conta do Twitter, compartilhando uma reportagem do site “Times of Israel” sobre o assunto.

Fundado em 1906, o Comitê Judaico Americano é uma das organizações mais antigas e influentes em defesa dos direitos civis de judeus. Parte importante do lobby pró-Israel nos EUA, o site do grupo lista como seus objetivos principais “combater o crescimento do antissemitismo e do extremismo, defender o lugar de Israel no planeta e salvaguardar os direitos e as liberdades de todos os povos”.

Sem desculpas

Em uma série de postagens em seu Twitter, Araújo ignorou a demanda para que se desculpasse, mas chamou a matéria do site israelense de “injusta e completamente equivocada”. Segundo o chanceler, o governo brasileiro vem adotando “uma política de aproximação sem precedentes” com Israel e com “o povo judeu” e  rejeita “frontalmente o antissemitismo que se esconde por trás do antissionismo”.

“Orgulho-me de minha postura de denunciar e combater o antissemitismo e de meu trabalho pela construção da relação de profunda amizade e parceria desejada pelos povos do Brasil e de Israel”, tuitou.

Listando medidas tomadas para se aproximar do país de Benjamin Netanyahu, o chanceler cita o apoio brasileiro ao controvertido plano de paz entre Israel e a Palestina proposto pelo presidente americano Donald Trump, a abertura do escritório comercial do Brasil em Jerusalém e a visita do presidente Jair Bolsonaro ao país no ano passado. O ministro disse ainda que o Brasil está caminhando para realizar a polêmica transferência de sua embaixada no país para Jerusalém.

Postagem polêmica

A polêmica diz respeito à postagem feita por Araújo em seu blog na semana passada, na qual faz uma resenha de um livro de Slavoj Zizek, um dos neomarxistas mais proeminentes da atualidade. Em “Pandemia – Covid-19 e a reinvenção do comunismo”, obra publicada no Brasil pela Boitempo, o filósofo esloveno afirma que o coronavírus demonstrou a insustentabilidade do atual modelo econômico, exigindo um pensamento além do mercado financeiro e do lucro.

Em sua postagem intitulada “Chegou o comunavírus”, Araújo afirmou que o livro de Zizek aponta para um “plano comunista” já em curso que busca tirar proveito da pandemia para implementar sua ideologia por meio de organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde. Isto, para ele, faz com que o “comunavírus” seja mais perigoso que a Covid-19.

“Segundo o autor [Zizek], ‘o trabalho liberta’ é o lema correto da nova era de solidariedade global que virá como resultado da pandemia”, escreveu o ministro, citando a expressão adotada pelo regime de Adolf Hitler. “Os comunistas não repetirão o erro nazista e, desta vez, o utilizarão corretamente. Como? Talvez convencendo as pessoas de que é pelo seu próprio bem que elas estarão presas nesse campo de concentração, desprovidas de dignidade e liberdade. Ocorre-me propor uma definição: o nazista é um comunista que não se deu ao trabalho de enganar as suas vítimas.”

‘Visao de mundo infame’

Respondendo às críticas, Araújo disse nesta quarta que Zizek fala sobre os campos de concentração como referência de uma “sociedade totalitária” que poderia emergir em razão da pandemia. Segundo o chanceler, esta “visão de mundo infame” teria a torcida do filósofo.

No ano passado, durante uma visita a  Israel, Araújo e Bolsonaro defenderam a ideia de que o nazismo seria um movimento de esquerda. A tese é contestada pela grande maioria dos historiadores, incluindo os especialistas do memorial em Israel que documenta o extermínio de 6 milhões de judeus pelos nazistas — que também, ainda antes da Segunda Guerra Mundial, prenderam milhares de comunistas, social-democratas, ciganos, homossexuais e outros indivíduos considerados indesejáveis

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