As Relações Perigosas: um dos livros mais diabólicos da literatura francesa que você precisa conhecer

Choderlos de Laclos apresenta uma trama repleta de intrigas que rendeu diversas adaptações para o cinema e até uma minissérie da Rede Globo.

(Sem spoilers)

A aristocracia francesa do século 18 não foi apenas conhecida por seus escândalos, mas também pela rotina regada à luxo e futilidade enquanto o restante do povo passava suas dificuldades, não muito diferente de hoje. Todos muito bem vividos em seus palácios sem terem muito com o que se preocupar à não ser com suas reputações, por trás daquelas paredes muito se escondia, praticamente tudo que sujaria a imagem de uma pessoa caso viesse à tona, porém nada difícil de varrer para debaixo dos panos. Mas nada daquilo importava, ninguém precisava saber ou tampouco ver. O que temiam, além de alguma falência, óbvio, com certeza seria uma exposição daquele estilo de vida tão fútil, mas que por detrás cheio de escândalos que tentavam a todo o custo esconder para passar uma visão moralista, quase que perfeita. E foi isso que Choderlos de Laclos fez.

Embora pertencente à essa nobreza, Pierre Ambroise François Choderlos de Laclos não era totalmente a favor dessa classe de privilegiados, tanto que com a chegada da Revolução Francesa, pouco tempo depois da publicação de sua obra, Choderlos atuou ao lado dos revolucionários contra o Rei. Muito dessa oposição à corte poderia ter decorrido dos olhares superiores da nobreza, pois, embora ele fosse nobre, sua família entrou para esse grupo há pelo menos uma geração, o que consideravam como recente.

Choderlos não era bem um escritor, ele foi general do exército francês por boa parte de sua vida. Porém, para surpresa de todos, em 1782, As Relações Perigosas (Les Liaisons Dangereuses) foi publicado. A corte, principalmente, encarou a obra como uma ofensa aos costumes, pois claramente Choderlos havia escrito como uma crítica à aristocracia francesa. Foi apenas no século 20 que seu livro foi reconhecido como uma verdadeira obra prima, porém, antes disso, embora tenha sido grande sucesso assim que publicado, boa parte das críticas julgavam como um material ofensivo, vulgar e, acima de tudo: diabólico.

As Relações Perigosas é um romance epistolar composto por 175 cartas que os personagens trocam uns com os outros, retratando seus jogos de poder e sedução, a dominação sobre outras pessoas, traições, intrigas, a destruição de reputações para a construção de sua própria e estilo de vida fútil que levavam. Nele, Choderlos apresenta a Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont: pertencentes a aristocracia francesa, amigos, amantes e, acima de tudo, cúmplices, viviam no mais absoluto luxo. Literalmente, não precisavam fazer nada, nem vestir as próprias roupas, pois tinham serviçais para isso. Muito por conta do ócio em que viviam, eles precisavam ocupar seu tempo. Suas vidas, apesar de tantos privilégios, eram vazias. E como preenchiam tal vazio? Com os jogos de manipulação e dominação sobre outras pessoas, os prazeres sexuais e emocionais que obtinham disso tudo.

Glenn Close como Merteuil e John Malkovich como Valmont em Ligações Perigosas, 1988.

Ambos são, como dizia a crítica da época, diabólicos. Inescrupulosos, sedutores, manipuladores e vingativos, se escondiam sob a fachada perfeita que um aristocrata precisa passar, porém tratavam entre si, em segredo e também através das trocas de cartas, tudo que precisavam fazer com suas vítimas. Sim, vítimas. Eles eram verdadeiros predadores, se deleitavam em manipular as pessoas, talvez muito para se auto-afirmarem. As pessoas só serviam para lhes proporcionar prazer.

Valmont precisava definir cada vez mais sua reputação de sedutor e tinha para isso uma presa perfeita: A Madame de Tourvel, esposa do Presidente de Tourvel, conhecida por sua devoção religiosa e natureza amável, que adotava os costumes sem a mínima hipocrisia, ela realmente era uma mulher de bom caráter. Valmont aposta com Merteuil que conseguirá seduzir Tourvel ao ponto de ela se apaixonar tão fortemente até largar tudo por ele. E assim, ele parte para sua maquiavélica missão. Embora Tourvel se mostre uma vítima difícil, que reluta em se entregar devido aos seus princípios, é exatamente essa dificuldade que estimula o predador.

A Marquesa, por outro lado, tinha um objetivo mais cruel: se vingar de um amante que a rejeitou ao pedir a mão de outra em casamento. Como era de costume na época, muitas mulheres deveriam se casar virgens, mas Merteuil não permitiria que isso acontecesse: o plano era corromper a noiva do rapaz, fazer com que ele se enganasse à respeito da integridade da mulher que viria a levar para o altar. Ele não casaria com uma virgem. Ele casaria com uma mulher já corrompida, com uma mulher que já se deu ao desfrute antes do casamento. Portanto, para seduzir e tirar a virgindade da ingênua noiva, a Marquesa conta com a ajuda de ninguém menos que Valmont. E assim, ambos selam um acordo. No desenrolar, além de toda vida fútil da aristocracia, Merteuil e Valmont manipulam suas vítimas como suas marionetes sem que ninguém ao menos suspeitasse de seus jogos, e não leva muito tempo para que tudo começasse a fugir do controle dos dois.

Ryan Phillippe, Sarah Michelle Gellar e Reese Whiterspoon em Segundas Intenções, 1999.

Cheio de intrigas e algumas sequências de ação, além de expor aquele estilo de vida aristocrático, Choderlos entrega um trabalho à frente de seu tempo. Não importa quantos anos passem, As Relações Perigosas continuará atual. Quando finalmente ganhou o reconhecimento que deveria, o romance rendeu diversas adaptações para o teatro e para o cinema, algumas delas como o longa dirigido por Stephen Frears lançado em 1988, Ligações Perigosas (Dangerous Liaisons), estrelado por John Malkovich, Glenn Close e Michelle Pfeiffer nos papéis principais, e Segundas Intenções (Cruel Intentions), uma versão moderna da obra por Roger Kumble, contando com Sarah Michelle Gellar, Reese Witherspoon e Ryan Phillippe no elenco em 1999. No Brasil, ganhou forma de minissérie em 10 episódios: Ligações Perigosas, protagonizada por Patrícia Pillar, Marjorie Estiano e Selton Mello. Esta, no caso, teve a trama transportada para o século 20, já que o Brasil não teve uma corte como a França e toda a ambientação precisou ser mais adaptada.

Embora seja volumoso, as páginas nunca acabam com o interesse do leitor em querer saber o que virá a seguir, o que os personagens farão e principalmente qual será o desfecho de cada um. Um dos pontos mais interessantes, por exemplo, é quando a Marquesa explica como e porquê se tornou uma mulher tão vil. O material poderoso – e erótico – que Choderlos entregou não tratou apenas de uma crítica à aristocracia francesa de seu tempo, mas lidou com assuntos como a religião e também sobre os costumes femininos que as mulheres deveriam adotar naquela época. Porém, o tempo todo, As Relações Perigosas denuncia o que há de mais podre em volta de pessoas que escondem tudo em seu mais absoluto luxo enquanto passam a imagem de perfeição, de moralismo. É uma crua exposição às máscaras sociais. Denuncia, sobretudo, o que existe e sempre existirá na sociedade: a hipocrisia, a falsidade e a monstruosidade presente sempre quando não há ninguém por perto para relatar.

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