A Leste do Éden: a psique humana e referências bíblicas sob o olhar de John Steinbeck

Clássico da literatura norte-americana, a obra de John Steinbeck enreda personagens usando arquétipos bíblicos e retrata as nuances de personalidade do ser humano, tal como sua inclinação para a maldade.

Aviso de spoilers

Já fazia um bom tempo em que passei a ter interesse em ler A Leste do Éden (East of Eden, 1952), quando um amigo me recomendou bem no início de 2019 dizendo que “era o meu tipo de livro”. Tentei, mas não encontrei a versão física do romance de John Steinbeck, escritor estadunidense que viveu grande parte de sua vida na Califórnia e obteve seu primeiro sucesso em 1935 com a publicação de seu livro Tortilla Flat (no Brasil, Boêmios Errantes). Infelizmente concluí a leitura em PDF, que vinha a ser um formato que nunca me rendi, porém A Leste do Éden me prendeu de tal maneira que minha rendição foi inevitável, principalmente por envolver assuntos dos quais me interesso profundamente: algumas referências bíblicas, que neste caso foram essenciais para construir os personagens; e também as nuances de personalidade que o ser humano possui. Meu amigo estava certo: é o meu tipo de livro.

Steinbeck nos faz caminhar por temas bíblicos como a criação do mundo, o início da humanidade e o fruto proibido, se inspirando principalmente nos irmãos Caim e Abel, trazendo os mesmos conflitos de forma mais realista e contemporânea.

Ambientada no Vale das Salinas, na Califórnia, a história gira em torno de duas famílias: os Hamilton (o patriarca, Samuel Hamilton, é avô materno do autor) e os Trask, os vizinhos, núcleo ficcional. Além de contar a forma em como ambas se relacionam, também é muito centrada na rivalidade entre dois irmãos – a mesma que se repete com os filhos de um deles na geração seguinte. É essencial ressaltar alguns fatos históricos usados como plano de fundo no romance, como a Guerra Civil Americana e a Primeira Guerra Mundial, já que todo o conteúdo se introduz no início do século XX, passando pelas gerações das famílias. Os Hamilton são especialmente interessantes principalmente pela forma em que seus patriarcas, Samuel e Liza, criam seus nove filhos em uma terra infértil até se entrelaçarem com seus vizinhos, os Trask.

Adam Trask é um rapaz rico que compra um rancho no Vale. Adam, em sua essência, é um homem bom, ingênuo, totalmente o contrário de Charles, seu irmão mais novo, que nutre por ele um crescente sentimento de inveja. E aí entra um dos arquétipos bíblicos usado por Steinbeck: Caim e Abel – porém, como já dito, usado de forma mais contemporânea e realista.

Charles é a representação de Caim. É do tipo invejoso, orgulhoso, obscuro e violento, pensa que Adam, o arquétipo de Abel, é o filho número um do pai, Cyrus Trask. Charles ressente o amor e atenção do pai pelo irmão mais velho, uma visão que não é exagerada ou fruto de uma paranoia. Charles é sempre o segundo colocado na lista de favoritos de Cyrus, enquanto Adam permanece em um “pedestal”. Mesmo que possua seus defeitos, Charles sempre foi muito mais esperto que Adam, mais inteligente, enquanto seu “concorrente” era mais ingênuo e não percebia a maldade nas pessoas, algo que Charles era muito bom em detectar. Deixando isso de lado, o fato é que Charles almejava desesperadamente a afeição de Cyrus. Na bíblia, Deus rejeita um presente de Caim, porém aceita o de Abel. Algo muito similar ocorre no livro, reforçando cada vez mais a referência bíblica usada por Steinbeck. Cyrus tampouco consegue explicar por que Adam é preferível a Charles e isso é super frustrante para o caçula.

Diferentemente da bíblia, onde sabemos que Caim matou Abel, Charles não chega a matar Adam, mas deixa claro que existe algum assunto inacabado entre os dois. E onde esse assunto inacabado nos leva? Para a próxima geração dos Trask. Como temos conhecimento da rivalidade de Caim e Abel e tudo acerca do “primeiro homicídio”, é importante lembrar também do “primeiro homem” e da “primeira mulher”: Adão e Eva. Relembrando o que provavelmente ninguém esqueceu: os pombinhos foram expulsos do Jardim do Éden após Eva comer o fruto proibido e com isso, introduzir o pecado ao mundo. Posteriormente, tiveram dois filhos: Caim e Abel. Caim matou Abel por inveja. A diferença é que em A Leste do Éden as coisas começam a ficar mais complicadas e complexas. Na primeira geração, Charles e Adam representam Caim e Abel, enquanto na geração seguinte, esses papéis são assumidos pelos filhos gêmeos de Adam: Caleb e Aron. Adam, por sua vez, assume outra figura bíblica e não menos importante: Adão. Eva, portanto, é representada por sua mulher, Cathy Ames.

Uma confusão, tantas referências, tantos arquétipos, mas sejamos diretos: Charles e Adam Trask são dois irmãos que competem pela atenção do pai. Cathy, por sua vez, é uma mulher maldosa que usa sua sensualidade para controlar os homens e se deleita em destruir as pessoas. Charles é o único que consegue ver o que esta mulher realmente é. Também é o único que inspira medo na mesma. Charles chega a alertar o irmão, que, apaixonado, não lhe dá ouvidos, apenas piora a relação conturbada dos dois. Isso não impede Charles de se render aos encantos de Cathy, que dopa Adam apenas para se deitar com ele. Porém, sem saber disso, Adam se casa com Cathy, que dá a luz aos seus gêmeos: Caleb e Aron. Ela abandona seus filhos com o marido e foge para tomar posse de um bordel. Na próxima geração, o foco passa a ser em Cal e Aron. Quando o leitor pensa que a rivalidade entre Charles e Adam por causa do pai foi feia, na geração seguinte ela toma uma proporção um pouco maior.

Aron e Cal são gêmeos, mas não idênticos. O que difere os dois é que Cal tem cabelos escuros, enquanto Aron é loiro, bem como suas personalidades totalmente opostas. Cal cresce misterioso, rebelde, obscuro, suspeito e indecifrável: absolutamente ninguém sabe ou entende o que se passa na cabeça dele, isso por ele também ser muito esperto. Ele usa sua inteligência para encontrar a fraqueza em outras pessoas para que possa usá-las em sua vantagem. Como Charles, Cal possui uma natureza competitiva, “ele sempre quer brigar”. Esse lado cruel, sombrio e calculista parece ser hereditário por parte de sua mãe. Em um momento, depois de descobrir sobre Cathy, agora chamada Kate, Cal pensa estar se tornando uma outra versão dela. Ele a entende porque “a tem em si mesmo”. Mais importante, ele enxerga o mundo pelo que ele é. Quando descobre com o que sua mãe trabalha e como ela é tóxica, ele mal se surpreende de tão realista que é sua visão sobre as pessoas. Mas ninguém nota esse lado em Cal, pois ele não é um livro aberto como o irmão. Ainda que tente ser como Aron, as pessoas parecem se afastar dele, pois como já foi dito, o fato se repete, um vai continuar sendo mais queridinho que o outro, o que Cal também não consegue entender. É solitário ao extremo, isolado, ele anda sozinho, sem amigos. Mas as pessoas, em Salinas ou não, vão continuar preferindo os loiros mais simpáticos.

A competitividade nesta geração é um pouco mais intensa que na anterior, mas apesar de qualquer conflito, Cal ama verdadeiramente seu irmão e deseja nada menos que protegê-lo do mundo, poupando-o de um destino cruel devido à sua bondade. Como Adam, Aron enxerga tudo sob uma perspectiva ingênua, o mundo é um lugar confuso e perigoso para ele e ele precisa da companhia das pessoas. Naturalmente, ele consegue. As pessoas querem se aproximar de um rapaz bonito que aparenta ser inocente – e de fato, ele é. Mesmo que Cal possa ser um produto de dois monstros (a paternidade dos gêmeos é posta em dúvida, visto que Cathy também dormiu com Charles), ainda assim ele é mais humano, um adolescente rebelde que procura entender a sociedade em que vive, embora já tenha noção de como ela seja.

Quando Aron conhece Abra, logo se apaixona e ouve dela que existe um rumor em Salinas de que sua mãe estaria viva e estabelecida na cidade, mas nem ele e Cal fazem ideia, ainda mais por que Cathy mudou seu nome para Kate após abandoná-los. Abra é uma personagem que pode ser usada como a “antítese” de Cathy, pois enquanto Cathy é pura maldade, Abra é virtuosa e cheia de compaixão, porém ambas estão presentes na vida dos irmãos Trask, cada uma em sua geração.

Tempos depois, Cal, após de um conflito com o pai que remete ao que aconteceu no passado, em um momento de raiva e ciúme, se vinga levando o irmão para conhecer sua mãe, uma verdade que ele não suportaria, uma quebra brutal de suas expectativas. Com uma visão mais realista das pessoas e do mundo e sua perspectiva idealizada de tudo agora destruída, Aron se alista para lutar na Primeira Guerra Mundial e acaba morto em batalha, notícia que faz Adam sofrer um derrame. Cal, por sua vez, no tempo em que Aron estava lutando na guerra, começou um relacionamento com Abra e tenta convencê-la a fugir com ele, mas não acontece.

“Timshel

Em seu leito, ainda em conflito com Cal, Adam é aconselhado por Lee, personagem que o acompanha até o fim, para que ele perdoe o filho antes de partir. Lee é sempre a voz da razão para os demais, muito sábio e de caráter bom, que consegue convencer Adam a liberar o perdão em seu momento final. É aí que a palavra “Timshel”, que até atualmente é lembrada pelos fãs do livro e uma das palavras mais emblemáticas de toda obra, ganha sua força. De origem hebraica, é introduzida por Lee como uma alegoria do pós Éden, da Bíblia. Timshel é escolha, nunca um dever, e como um romance que ressalta principalmente o poder de escolha que todos têm e tudo que vêm em decorrência dela, Timshel não seria palavra mais apropriada para ser usada por Adam em seus últimos minutos de vida. Escolhendo perdoar o filho antes de partir, Adam solta a emblemática Timshel, limpando-se de qualquer mágoa, quebrando o ciclo e oferecendo o perdão que seu filho merece. Todos possuem o poder da escolha, até mesmo pessoas como Cathy.

Há tantos outros personagens que deixei de mencionar, mas que não são menos importantes. Cada um têm sua função, por mínima que seja. O ponto aqui é outro.

A maldade em sua forma mais pura

É neste romance que Steinbeck criou uma das personagens mais controversas e monstruosas que conheci, e que, posteriormente durante algumas pesquisas, percebi que, obviamente, é uma visão que está bem longe de ser apenas minha. Ela é horrível. E é nela que quero focar a partir de agora.

São poucos os livros que leio e imagino tudo como um filme, como algo que enxergo acontecendo bem em minha frente, com personagens cujas descrições e cenas batem com tudo que imagino a cada trecho que me passa. Não achei que neste caso eu teria essa sensação, pois leitura em PDF não me prende. Ledo engano. E foi Cathy Ames quem me chamou mais a atenção que os demais e me perturbou durante alguns momentos da leitura, embora todos os personagens tenham suas características que os tornam interessantes. Nas páginas, Cathy é o arquétipo de Eva por “introduzir o pecado ao mundo”, e, para alguns, ela pode ser o arquétipo do próprio diabo, que em uma visão superficial, é nada menos que anjo rebelde que rejeita a autoridade imposta sobre ele e que despreza a humanidade, assim como Cathy. Para mim, por vezes foi uma personagem difícil de acompanhar, que me tirava a paciência simplesmente por não possuir traço algum que a humanizasse. Ela era má, apenas isso, vindo a ser uma das megeras mais lembradas da literatura quando o assunto é sobre vilões. Eu amo vilões pela forma em que enredam e dão funções aos personagens ao redor, desde que não sejam rasos em toda sua construção e principalmente na sua personalidade, que justificam suas ações, mas sim os que são construídos de formas mais profundas e que suas ações venham a decorrer de traumas, por exemplo, ou de qualquer outra coisa que possa danificar a sanidade de uma pessoa. O que, no ponto de vista de Steinbeck, não ocorre com Cathy. Ela simplesmente nasceu diabólica e essa afirmação me incomodou, mas nem tanto, pois apesar de ser rasa, ao mesmo tempo era tão bem escrita e construída pelo autor que a tornava uma personagem um tanto profunda, é perceptível como ele se empenhou em escrevê-la, como se fosse sua favorita. Foi uma confusão ser apresentado à ela, um misto de sentimentos, uma junção de tudo que considero bom e ruim nas características e desenvolvimento de um personagem. Mesmo que Steinbeck tenha sua própria visão sobre ela, ao concluir a leitura, eu obtive a minha, chegando ao ponto de “entender” por que a personagem é maléfica não simplesmente por ser, mas sem descartar a possibilidade de ela ser uma clássica psicopata. Cathy é difícil de analisar, pois nada é claro sobre ela. Parece que Steinbeck a criou não para ser compreendida, mas somente para cumprir seu papel de vilã como o monstro que ela demonstra ser. Ele a classificou como sendo maligna antes que o leitor possa ler sobre ela. Ele não quer que o leitor investigue sua psique tentando descobrir o porquê. O que ele quer enfatizar é que ninguém sabe o que Cathy Ames quer. Ela é o que é.

Steinbeck não é bem um narrador confiável, principalmente quando se trata de Cathy. Em alguns pontos do livro, há de se convir que sua visão sobre ela e sobre a história em si não é lá cem por cento confiável. Afinal de contas, para mim, qualquer autor não é confiável. Não é por que um personagem não é de nossa criação, não saiu da nossa cabeça, que não podemos criar um ponto de vista totalmente próprio do mesmo, principalmente quando pedaços da história nos levam a isso. A interpretação vai de cada leitor, o autor simplesmente está nos contando algo sob seu ponto de vista pessoal e absorvemos à nossa forma.

O fato de ter motivos ou não para ser do jeito que é não exclui o fato de Cathy ser como o autor a descreve: um monstro. Ela com certeza é. Assim que Steinbeck a apresenta para o leitor, ele a contrapõe com monstros que nascem com alguma deformidade física, algo que muitos erroneamente por vezes julgam como tal criatura essas pessoas fisicamente deformadas. Ela é um monstro por nascer com a alma, segundo o autor, mal formada, vazia de sentimentos benignos, um monstro moral, a personificação do mal, algo que hoje a caracterizaria como uma psicopata, porém Cathy, como tantos, existiu antes que tudo isso fosse considerado uma doença dos nossos tempos.

Desde criança, Cathy possui a tendência para a maldade. Quando pequena, ela usou sua sexualidade precoce para acusar dois garotos de estupro, amarrando suas próprias mãos. Mais tarde, ela seduz seu professor de Latim, brinca com suas emoções e o faz tirar sua própria vida. A medida em que cresce, ela aprende a fingir sentimentos que na verdade não sente para obter o que deseja. Aos dezesseis, ela tenta fugir para Boston, mas seu pai a impede e a castiga. Em seguida, após ganhar a confiança dos pais para ter acesso ao cofre da família, Cathy rouba todo o dinheiro e foge. Antes isso fosse absurdo, mas só piora: antes, sem hesitar, ateia fogo em sua casa com seus pais dentro, causando a morte deles. Fugindo dali e dada como desaparecida, visto que seu corpo obviamente não é encontrado junto com os de seus pais, Cathy acaba cruzando com o Sr. Edwards, um cafetão, se tornando amante dele. Cathy não hesita em manipulá-lo, se diverte em brincar com os sentimentos dele, constantemente fazendo com que ele se sinta descartável e que ela pode, a qualquer momento, abandoná-lo. É a última coisa que ele poderia querer, pois já estava apaixonado por Cathy. Aos poucos, ele descobre a real personalidade da mulher, que transparece quando ela ingere algumas doses de álcool – motivo para ela evitar bebidas alcoólicas afirmando que apenas a faz mal. Desconfiado cada vez mais de Cathy, Edwards descobre sobre o incêndio na casa dos pais da amante e seu desaparecimento suspeito. Ele a castiga, surrando-a violentamente e deixando-a para morrer. Nesta mesma noite, ela é encontrada por Adam e Charles, que a socorrem. Enquanto cuida de Cathy, Adam não resiste à sua beleza e resolve se casar com ela, que aceita para se proteger do Sr. Edwards. Charles, porém, consegue enxergar através dela, mas Adam ignora seus avisos. Nem Charles, ainda que consiga ver que ela não é coisa boa, consegue resistir ao charme de Cathy. Percebendo o interesse do irmão mais novo do marido, Cathy resolve agir para não ser exposta: dopa Adam para que ele caia em sono profundo e aparece no quarto de Charles, o seduz e dorme com ele. Assim, nem um poderá expor o outro.

Consequentemente, ela engravida. Em momento algum do livro a paternidade das crianças é esclarecida. Ela tenta abortar, mas falha. Decidindo continuar com a gravidez, Cathy pretende abandonar o marido com suas crianças assim que puder. Seu parto é uma das cenas mais sinistras que já li. É amarga, cheia de ódio, onde Cathy reage furiosamente a ponto de morder a mão de quem ajudava no parto. Algumas semanas após o nascimento dos gêmeos, Cathy decide partir, mas Adam tenta impedi-la e ela lhe dispara um tiro no ombro, abandonando o lar enquanto Adam agoniza no chão e seus gêmeos choram.

Não para por aí. Cathy não estava disposta a parar por nada. Mesmo após abandonar seus gêmeos e seu marido, ela se apresenta como Kate para Faye, dona de um bordel, onde passa a trabalhar como prostituta. Kate aos poucos ganha a confiança de Faye, que passa a considerá-la como uma filha, suficientemente para incluí-la em seu testamento para que ela passe a ser proprietária do bordel. Quando Kate tem conhecimento sobre isso, ela mergulha em um diabólico plano para assassinar Faye a fim de tomar posse do estabelecimento, envenenando a ingênua mulher aos poucos. Quando consegue, ela transforma o local em um antro de sadismo e perversão, atendendo a homens importantes e criando registros de suas visitas para que possa chantageá-los.

Adam, ainda muito crédulo de que a esposa não seja esse demônio, a encontra. Mesmo sabendo que sua amada é dona do bordel e não possui interesse algum em voltar para ele e para a vida que tinham, ele ainda possui a esperança de que Kate é uma boa mulher e que poderia estar apenas perdida em seus próprios caminhos, mas para de insistir quando ela realmente mostra quem é: um ser desalmado, sem um pingo de humanidade, que o rejeita. Ela se recusa a acreditar na compaixão de Adam, principalmente quando ele lhe entrega uma quantia em dinheiro que Charles deixou para ela antes de morrer. Kate não entende por que Adam continua sendo bondoso com ela, mesmo depois de ter revelado quem realmente é, da mesma forma em que desacredita na bondade de todos. É um sentimento que não consegue entender, tanto que expõe durante a discussão essa “hipocrisia” da humanidade (para ela ninguém é bom, ninguém é compassivo, todos são podres e escondem isso) tirando de uma de suas gavetas todos os registros de homens importantes e de “boa moral” que visitam seu bordel, afirmando em seguida que os guarda para chantagear seus clientes. Sua falta de compaixão é mais uma vez reafirmada quando ela revela que, quando um dia for embora, espalhará pela cidade todo aquele conteúdo pelo simples prazer de causar a destruição. Antes que o marido partisse, ela faz com que um segurança do bordel o espanque e ainda planta no marido a dúvida de que ele pode não ser o pai de seus gêmeos, confessando que dormiu com Charles. Mesmo com essa dúvida, a paternidade dos gêmeos não chega a ser clara, pois Aron possui a ingenuidade de Adam e a beleza angelical de Kate; e Cal carrega traços físicos que lembram bastante os de Charles, herdando também a obscuridade presente tanto na mãe quanto no possível pai.

Foi interessante e até estimulante ver como Cathy/Kate evitava o álcool por medo de perder o controle e deixar sua máscara cair, e que quando acontecia, tentava contornar toda a situação para passar a visão de que fosse ela um anjo, já que sua aparência passa tal imagem, uma beleza angelical que ela perde com o tempo, até terminar parecida com “um fantasma”. Foi bom também ver como ela, em seus momentos de desespero quando aos poucos as pistas que a ligavam ao assassinato de Faye começaram a aparecer, tentava encobrir seus rastros. Mas, a esta altura, já confrontada pelos filhos e talvez sentindo remorso pela primeira vez pelos seus atos perversos, ou até mesmo envergonhada de tudo, Cathy/Kate percebe que sempre esteve pronta para tomar a atitude de tirar sua própria vida. Ela se suicida, deixando todo seu dinheiro para apenas um de seus filhos.

O fato é que, ao meu ver, Cathy poderia ter nascido sim com algum desvio de personalidade, como também alguns fatos de sua vida possam tê-la moldado assim ou piorado esses transtornos. Como já citei sobre Steinbeck não ser muito confiável, nem mesmo ele pode garantir que ela realmente não tenha sido abusada pelos meninos quando menor, já que sua narração soa como “algo que ele ouviu falar” ou “uma memória distante”, mediante a alguns trechos em que suas lembranças parecem não ser tão claras, como já citado, como também é meio difícil imaginar como uma criança pode amarrar a si mesma, criando o fato de que ela fez isso e culpou os garotos por estupro. Afinal, coisas como essas ainda acontecem, muitos acham que quando uma mulher é abusada, ela possa ter provocado ou até mesmo inventado pela talvez ausência de evidências. A sociedade nunca foi justa com as mulheres e isso não é surpresa para ninguém. Quem pode garantir que Cathy não teria sido mesmo estuprada por esses garotos e a partir disso nasceu seu ódio pelas pessoas?

Sobre Cathy ter levado seu professor ao suicídio, também é suspeito. Ela era menor e ele claramente um pedófilo. Ele pode ter reprimido em si este sentimento que conscientemente é errado, e, por se condenar, apelou para o suicídio, até por que é citado que ele queria ser um padre. Talvez o que realmente o matou tenha sido o conhecimento de que ele estava tentando molestar uma garotinha e não pôde evitar essa compulsão.

Nada pode justificar um crime tão hediondo como assassinar os próprios pais, mas no caso de Cathy, de alguma forma, ela sentia que não era livre e em sua mente distorcida, se livrou deles assim. Horrível, injustificável, mas para Cathy, que desejava liberdade, foi o “melhor” jeito. “Ser livre pelo mundo para espalhar a desgraça”, pode ser uma motivação de Cathy. Ela poderia ter apenas escapado com o dinheiro, mas em decorrência de tudo que possa ter lhe acontecido, a violência era uma forma de descontar seu ódio pela sociedade, ou se vingar dos pais por ter sido castigada quando tentou fugir. Há muito em Cathy que explica o ódio que sente pelas pessoas e por que não enxerga e tampouco entende ou acredita na bondade. Ela sabe como as pessoas podem ser feias, genuinamente crê que todos são hipócritas, que todos fingem, quando na verdade existem e passam por ela pessoas boas. Acredita nisso por não ter dentro de si mesma sentimentos bons.

Abandonar os filhos com o marido e partir sem remorso também foi imperdoável de sua parte, principalmente por atirar em Adam. Mas vamos falar de Adam. Ele nunca perguntou a sua esposa o que ela queria ou precisava. Adam nem deu tempo da mulher se recuperar de suas feridas e aproveitou sua invalidez para firmar sua relação, uma vez que já estava apaixonado. Adam era mais focado em si mesmo. Quando a ilusão que criou de sua esposa se desfez após a partida dela, Adam ficou uma bagunça total. Ele nem se importou com os seus gêmeos e ficou por meses deitado em sua cama tentando entender algo. Porém, ela queria partir após o nascimento de seus filhos e ele tentou impedi-la, chegando a trancá-la dentro do quarto. Ela não reagiria desta maneira violenta se Adam apenas a deixasse partir sem forçá-la até fisicamente a ficar. Tudo para Cathy é extremo, é a maneira que reage. Ela não tinha a intenção em permanecer em um único lugar a vida toda. O casamento com Adam foi um meio que usou para se proteger do Sr. Edwards. Os filhos vieram em consequência e não fazia parte dos planos de Cathy, por isso tentou abortá-los. Quando deu à luz, finalmente pôde seguir seu caminho, abandonando para trás tudo que nunca quis carregar consigo mesma, tudo que não fazia parte de seus planos.

A leitura sugere sim que Cathy possa ter nascido com traços psicopáticos. Essa característica desagradável pode ser aprimorada pela sociedade. O Sr. Edwards tentou possuí-la, algo que ela claramente não permitiria, pois ela odeia e rejeita o controle. Ele, por sua vez, a agride e a deixa para morrer. O ódio de Cathy pela sociedade e pelos homens cresce. Ela sabe como as almas das pessoas podem ser feias, é um dos motivos para ela não enxergar e tampouco compreender a bondade de alguns. Cathy só sabe como se sente. Em sua discussão com Adam, Cathy não consegue entender a compaixão do marido. Ela tenta dissecá-lo, entendê-lo, mas não compreende.

Não defendo a maldade de Cathy ou de qualquer outra pessoa, mas no caso da personagem, há pontos que podem justificar que ela não é má simplesmente por ser. É uma maneira um pouco rasa de construir um personagem, ainda que ela tenha sido muito bem desenvolvida e consistente. É a minha visão sobre, mesmo tendo conhecimento de que algumas pessoas possam nascer com esses transtornos antissociais. Com motivos ou não, Cathy possui sim as tendências e a vida só fez piorar, já que poucos – e tampouco ela – procuravam entender o que havia de errado nela. Mas para Steinbeck, algumas pessoas são mais propensas para a maldade do que outras, porém nenhum ser humano está ileso de se transviar do moralmente correto. Qualquer um pode ter essa patologia. E é neste ponto em que Steinbeck e eu entramos em uma concordância.

Mesmo contendo alguns personagens, principalmente os femininos, bastante estereotipados, ainda assim A Leste do Éden é uma obra prima. Com pouco mais de 600 páginas, o romance de John Steinbeck é visceral e prende o leitor a cada página, seja por sua escrita impecável, quanto pela trama, personagens e referências, tudo muito bem desenvolvido. Curto e grosso, Steinbeck mostra a que veio, expondo sua visão sobre o ser humano e suas nuances de forma muito pessoal, como ele também faz em alguns de seus outros trabalhos. É reflexivo, brutal, cru. Uma leitura que vale a pena. A Leste do Éden é sobre os elementos mais básicos em ser humano: a dualidade entre o bem e o mal, a necessidade de ser amado e o medo de não ser.

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